A catatonia é uma síndrome neuropsiquiátrica marcada por alterações intensas no movimento, na fala e no comportamento, que pode acompanhar transtornos do humor, quadros psicóticos, condições do neurodesenvolvimento e diversas doenças clínicas gerais. Embora costume ser tratável e, na maior parte dos casos, reversível, esse quadro ainda é pouco reconhecido fora do consultório especializado, o que atrasa o início de um tratamento psiquiátrico capaz de reduzir riscos e sofrimento.

O que é a catatonia?

Ela é uma síndrome caracterizada por alterações psicomotoras que variam entre a imobilidade extrema e a agitação sem propósito, muitas vezes acompanhadas de comportamentos incomuns e redução da capacidade de resposta ao ambiente. Durante décadas, ela foi associada quase exclusivamente à esquizofrenia, mas hoje sabemos que se trata de uma condição transdiagnóstica: pode surgir em transtornos do humor, no transtorno do espectro autista e em condições clínicas e neurológicas gerais.

O DSM-5 reconhece a catatonia como um especificador que pode ser aplicado a diferentes diagnósticos, e não mais como uma característica exclusiva de um único transtorno. Estudos indicam que essa síndrome está presente em uma parcela relevante das internações psiquiátricas agudas, sendo mais frequente do que se imaginava, especialmente em pacientes com transtorno bipolar e depressão grave.

Quais são os sintomas da catatonia?

O diagnóstico exige a identificação de pelo menos três dos sinais psicomotores característicos da síndrome. Os principais são:

Quais são os tipos de catatonia?

Na prática clínica, costuma-se distinguir três apresentações principais dessa síndrome, que podem inclusive se alternar no mesmo paciente ao longo do quadro.

Catatonia retardada (estuporosa)

É a forma mais reconhecida, marcada por imobilidade, mutismo, recusa alimentar e redução intensa da resposta a estímulos. O paciente pode permanecer horas em uma única posição e apresentar risco de desidratação, desnutrição e trombose venosa profunda devido à imobilidade prolongada.

Catatonia excitada

Caracterizada por agitação psicomotora intensa, impulsividade e comportamentos repetitivos ou sem propósito aparente. Pode ser confundida com quadros maníacos ou psicóticos agudos, o que reforça a importância da avaliação psiquiátrica cuidadosa antes de definir a conduta.

Catatonia maligna

É a forma mais grave e considerada uma emergência médica. Envolve instabilidade do sistema nervoso autônomo, com febre, alterações da pressão arterial e da frequência cardíaca, rígidez muscular importante e risco de rabdomiólise. Pode ter apresentação semelhante à síndrome neuroléptica maligna, exigindo diagnóstico diferencial cuidadoso e internação imediata.

O que causa a catatonia?

As causas podem ser divididas em psiquiátricas e clínicas gerais, e a investigação de ambas é essencial antes de definir o tratamento.

Entre as causas psiquiátricas, os transtornos do humor, como depressão grave e transtorno bipolar, são hoje reconhecidos como os principais responsáveis pela catatonia, superando a esquizofrenia em frequência. O transtorno do espectro autista também pode cursar com esse quadro, especialmente na adolescência e no início da vida adulta.

Já entre as causas clínicas gerais, destacam-se encefalites autoimunes, distúrbios metabólicos e endocrinológicos, alterações neurológicas como lesões cerebrais e epilepsia, uso ou abstinência de determinadas substâncias e efeitos adversos de medicamentos, incluindo alguns antipsicóticos. Por isso, todo paciente com catatonia deve passar por uma investigação clínica cuidadosa antes de se assumir uma causa exclusivamente psiquiátrica.

Do ponto de vista neurobiológico, acredita-se que esse quadro esteja relacionado a uma redução da atividade do neurotransmissor GABA e a alterações na via glutamatérgica e dopaminérgica, o que ajuda a explicar tanto os sintomas quanto a boa resposta a medicamentos que atuam nesses sistemas.

Como é feito o diagnóstico da catatonia?

O diagnóstico da catatonia é clínico e baseado na observação cuidadosa do paciente pelo psiquiatra, geralmente com o auxílio de escalas específicas, como a Bush-Francis Catatonia Rating Scale, que ajuda a identificar e quantificar os sinais psicomotores presentes.

Um recurso diagnóstico importante é o teste de desafio com lorazepam: a administração de uma dose do medicamento costuma produzir melhora rápida e evidente dos sintomas catatônicos, o que reforça o diagnóstico e já direciona o início do tratamento.

Também é fundamental realizar exames complementares, como exames de sangue, neuroimagem e, em alguns casos, avaliação do líquido cefalorraquidiano, para descartar causas clínicas ou neurológicas que possam estar por trás do quadro e que exigem tratamento específico.

Como é o tratamento psiquiátrico da catatonia?

Benzodiazepínicos

O lorazepam é o medicamento de primeira linha para o tratamento da catatonia, geralmente em doses progressivamente ajustadas até a resposta clínica. A maioria dos pacientes apresenta melhora significativa já nos primeiros dias de tratamento, embora alguns casos exijam doses mais altas e acompanhamento hospitalar.

Eletroconvulsoterapia

Quando a resposta aos benzodiazepínicos é insuficiente, ou nos casos de catatonia maligna, a eletroconvulsoterapia é considerada o tratamento mais eficaz e, muitas vezes, o mais rápido para reverter o quadro. Trata-se de um procedimento seguro, realizado sob anestesia, com evidência sólida de eficácia na catatonia refratária.

Tratamento da causa de base

Paralelamente ao controle dos sintomas catatônicos, é essencial tratar a condição de base, seja um transtorno do humor, uma condição clínica ou uma causa neurológica. O uso isolado de antipsicóticos deve ser feito com cautela, pois em alguns casos pode piorar o quadro ou favorecer o desenvolvimento de síndrome neuroléptica maligna.

A catatonia é uma emergência médica?

Em sua forma maligna, sim. A instabilidade autônomica, a febre alta e a rígidez muscular grave podem evoluir com complicações sérias, como insuficiência renal, e colocam a vida do paciente em risco caso o tratamento não seja iniciado rapidamente. Por isso, quadros catatônicos com sinais de alteração clínica devem ser avaliados em ambiente hospitalar, com suporte clínico e psiquiátrico integrado.

Quando procurar um psiquiatra?

Se você observar em alguém próximo uma redução brusca da fala ou do movimento, posturas incomuns mantidas por muito tempo, recusa alimentar ou períodos de agitação sem explicação aparente, procure avaliação psiquiátrica o quanto antes. Assim como em outras condições semelhantes à esquizofrenia e ao transtorno bipolar, o diagnóstico precoce da catatonia melhora diretamente o prognóstico e reduz o tempo de sofrimento do paciente e da família.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *